Essa fruta deliciosa, outrora (injustamente) apontada como o ensejo para que o homem fosse expulso daquele jardim que todos comentam. Numa gôndola do supermercado elas parecem guerrear para chamar nossa atenção, exibindo suas garridas cores de um tom vermelho escarlate difícil de não notar – a não ser, claro, que você seja adepto do “verde”, tão ecochato que não bebe leite e só come maçã e uva verde.
Pois foi num desses supermercados que nossa maçã apontou. Ao lado de suas iguais, essa fruta era vermelha, lisa, reluzente e aparentemente suculenta como uma boa… maçã.
Ardiloso, porém, é o destino da maçã em uma gôndola. A forma como que as pessoas apalpam a fruta dá a entender que todas são especialistas na escolha de uma maçã. As que ficam pra trás, acuadas, entram em um conflito interno, coitadas. Tentam entender por que são rejeitadas. E adoecem. E apodrecem.
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Os dias passam e a maçã fica à espera de um especialista para escolhê-la. O tempo dá corda para que ela, triste, apodreça. Abandona sua robusta cor. Deixa de exalar seu agradável odor.
A maçã não chama mais atenção de ninguém; praticamente invisível, passa a ser apenas um lixo à espera de ser recolhido.
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Mas para toda maçã há um especialista.
Num dia, um garoto pobre e mulato – e ainda mais escuro tanto de sol quanto de sujeira – entra no supermercado. Suas mãos não podem com as maçãs reluzentes, tão novas que parecem ter acabado de sair daquele tal jardim. Essas maçãs ensejam mãos polidas. Esnobes!
O garoto então avista sua maçã. Tão podre quanto ele, o pobre infeliz sabe que com essa fruta ele pode lidar. Sai de perto da gôndola com a maçã em seus braços. Preocupado para não ser avistado, o miserável não percebe a felicidade de sua maçã, enfim escolhida, pronta para servir seu melhor propósito.
Maçã não é pecado. Maçã é alimento.
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Alheio a essa história, o garoto podre, enfim, come sua maçã podre.
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Dedico isso ao meu irmão, que escreveu essa história numa versão tragicômica quando tinha, sei lá, uns 10 anos.
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Long live the king: Ai tadeenho do garotinho, queria tanto dar muito amor a ele.
