Acordei cedo e fui comprar pão. Saí na rua e um papel voou em minha direção.
Tão inesperado quanto uma rima logo no primeiro parágrafo de um post no blog, me perguntei se o que aconteceu não seria essa tal de “obra do acaso”. Mas eu nem sabia que o acaso trabalhava em obras.
Eu sequer acreditava no acaso!
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O que voou em minha direção foram doces palavras, escritas como se fossem jogadas ao oceano, para algum náufrago à espera de uma garrafa trazendo boas notícias.
Não sei se este náufrago sou eu (eu nunca sei). Mas quanto mais leio, mais me vejo na angústia dessa pessoa.
Eu às vezes sinto que ela, a dona da carta, sou eu. Às vezes penso que sou o que ela precisa. Às vezes eu a quero. Às vezes eu a odeio.
Mas eu não sei se Catarina me quer.
Eu não conheço Catarina.
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sonhos de algodão doce
eu queria provar um sonho, saber se ele tem mesmo gosto de algodão doce. só que eu não consigo sonhar.
nunca tive um sonho com o qual eu possa me lembrar ao acordar. minha vida vazia não me permite ter lembranças do meu dia. tudo é muito seco, é muito escuro, é muito vazio. e frio.
solitária em meu quarto, eu então tentei sonhar acordada. me imaginei de mãos dadas com alguém, correndo feliz por um campo verde num sol ameno de outono. sonhei com minha casinha velha e térrea, com longos e largos corredores ao lado e um belo jardim no quintal. pensei nos saborosos bolinhos de chuva que poderia preparar para qualquer um que chegasse em minha casinha: uma vizinha, um parente, um amor, o amor da minha vida…
de olhos fechados, mas acordada, eu tento sentir esse algodão doce pela primeira vez. mas ao pensar num sonho, o que eu saboreio são bolinhos de chuva.
e infelizmente, meus bolinhos de chuva são amargos.
pois a chuva que cai ao prepará-los não é chuva.
são lágrimas. minhas lágrimas.